O Cânion do Colca é mundialmente famoso por seus desfiladeiros imponentes e condores. Agora, justamente este local no Peru deve se transformar em um gigantesco laboratório de pesquisa. Milhares de sensores devem buscar ali partículas que cruzam todo o nosso planeta quase despercebidas.
O que os cientistas planejam no Cânion do Colca soa inicialmente como ficção científica. O projeto de pesquisa internacional TAMBO – Tau Air-shower Mountain-Based Observatory visa detectar tau-neutrinos de alta energia. Para isso, os pesquisadores não precisam de um túnel subterrâneo de quilômetros de extensão. Eles querem usar algo que o Peru já possui: as montanhas gigantescas do Cânion do Colca.
5.000 DETETORES NO MEIO DO CÂNION DO COLCA
Segundo os cientistas envolvidos, aproximadamente 5.000 detectores de cintilação plásticos estão previstos para o observatório completo. Eles devem ser instalados nas encostas do cânion para registrar sinais minúsculos gerados por partículas de energia extremamente alta vindas do espaço.
O diferencial: a própria montanha torna-se praticamente parte do experimento. Um tau-neutrino pode atravessar a matéria quase sem impedimentos. No entanto, se ele encontrar matéria dentro de uma montanha e interagir ali, uma chamada partícula tau pode ser criada. Esta pode deixar a montanha e, em seguida, desintegrar-se na atmosfera. Isso gera toda uma cascata de outras partículas. São exatamente esses chuveiros de partículas que os sensores no Cânion do Colca pretendem medir.
POR QUE JUSTAMENTE O PERU?
A escolha do Vale do Colca como possível local não é por acaso. Sua geografia extraordinária oferece condições particularmente interessantes para tal experimento. As encostas opostas e a enorme profundidade do cânion permitem usar a paisagem natural como parte do detector.
As montanhas servem simultaneamente como alvo para os neutrinos e como blindagem contra sinais de interferência. Para a ciência, o Cânion do Colca poderia, assim, tornar-se um local extraordinário. É importante ressaltar, porém, que o local definitivo será determinado por critérios científicos, logísticos e sociais; o Colca é atualmente considerado um candidato muito promissor.
AS "PARTÍCULAS FANTASMAS" DO UNIVERSO
Os neutrinos estão entre as partículas elementares conhecidas mais enigmáticas. Uma quantidade inimaginável delas atravessa constantemente o nosso corpo e a Terra sem que percebamos. Elas não possuem carga elétrica e raramente reagem com outras matérias. É exatamente por isso que são tão difíceis de detectar.
Para os astrofísicos, elas são, ao mesmo tempo, extremamente valiosas. Os neutrinos podem transportar informações de regiões do Universo de onde a luz ou outras radiações dificilmente chegariam até nós. Por isso, os pesquisadores esperam usar neutrinos de alta energia para descobrir mais sobre eventos cósmicos violentos e possíveis processos físicos até então desconhecidos.
FÍSICO PERUANO DE HARVARD ESTÁ ENVOLVIDO
Um dos principais cientistas por trás do TAMBO é o físico peruano Carlos A. Argüelles, da Universidade Harvard. O projeto, no entanto, é muito maior. Segundo as instituições envolvidas, a colaboração TAMBO compreende 26 instituições de nove países. Universidades e centros de pesquisa peruanos também estão participando.
A base científica do projeto foi publicada em julho de 2026 na Nature Astronomy. O TAMBO visa investigar, em particular, uma faixa de energia na qual tau-neutrinos de alta energia podem fornecer novas pistas sobre fontes cósmicas e, possivelmente, sobre uma física além dos modelos atuais.
O IRMÃO MAIS NOVO DO TAMBO JÁ ESTÁ EM CONSTRUÇÃO
Ainda não há 5.000 detectores no Cânion do Colca. Mas o projeto não está mais apenas no papel. Com o TAMBITO, está sendo criado um protótipo menor para testar a tecnologia e os métodos de medição sob condições reais.
Segundo as instituições de pesquisa envolvidas, a conclusão do observatório TAMBO completo está prevista atualmente para 2028. No entanto, esses cronogramas ainda podem mudar em um projeto de pesquisa internacional.
TURISTAS PODERIAM SE TORNAR TURISTAS CIENTÍFICOS
O TAMBO poderia ganhar um significado completamente diferente para o Vale do Colca. A colaboração aborda expressamente questões sociais e ecológicas do local, envolvendo comunidades locais e cientistas sociais no planejamento.
Dessa forma, além da paisagem, dos vilarejos tradicionais e dos famosos condores, poderia surgir mais um motivo para se interessar pela região: pesquisa de ponta internacional no meio dos Andes peruanos. Possíveis oportunidades educacionais e de pesquisa para a região também desempenham um papel no desenvolvimento do projeto.
O CÂNION DO COLCA GANHA UM PAPEL COMPLETAMENTE NOVO
O Cânion do Colca já é uma das atrações turísticas mais conhecidas do Peru. O TAMBO agora pode dar à área uma segunda importância internacional. Onde os visitantes observam principalmente condores e contemplam um dos desfiladeiros mais espetaculares da América do Sul, milhares de sensores poderiam, no futuro, buscar por mensagens minúsculas do Universo.
E as imensas paredes rochosas dos Andes peruanos poderiam, justamente, ajudar a investigar algumas das questões em aberto da física de partículas moderna.
OS NÚMEROS DO PROJETO
Projeto: TAMBO – Tau Air-shower Mountain-Based Observatory
Objetivo: Detecção de tau-neutrinos de alta energia
Detector planejado: cerca de 5.000 sensores de cintilação plásticos
Possível local: Vale do Colca / Cânion do Colca, Arequipa, Peru
Colaboração internacional: 26 instituições de nove países
Protótipo: TAMBITO
Meta para o observatório completo: 2028
Publicação científica: Nature Astronomy, 15 de julho de 2026
El Comercio, 21 de setembro de 2026
Nature Astronomy, 15 de julho de 2026
Harvard University, Department of Physics
Pontificia Universidad Católica del Perú – Grupo de Altas Energías
University of Hawaiʻi at Mānoa
Fonte da imagem principal: Diary of a Tourist – Cânion do Colca, foto de 3 de junho de 2023.